quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Teasers de TESTEMUNHA 4

Testemunha 4 - teaser from Mirada Filmes on Vimeo.


Testemunha 4_novo teaser from Mirada Filmes on Vimeo.

Documentário TESTEMUNHA 4 na III Semana dos Realizadores



O filme TESTEMUNHA 4, documentário dirigido por Marcelo Grabowsky e realizado a partir da montagem de 24 horas de O INTERROGATÓRIO, foi selecionado para a terceira edição da Semana dos Realizadores, um festival conceituado que acontece no Rio e funciona como alternativa à exibição de longas com caráter mais autoral e de jovens diretores, e este ano, pela primeira vez, conta com uma mostra competitiva.

A primeira sessão de TESTEMUNHA 4 ocorreu no dia 21 de outubro, no Unibanco Arteplex, e a segunda exibição se dará no próximo dia 5 de novembro, às 14hs, no Instituto Moreira Salles. É uma ótima oportunidade para quem viu (e para quem não viu) O INTERROGATÓRIO de conferir o filme, que é um recorte da peça e acompanha a trajetória da atriz Carla Ribas interpretando a personagem Testemunha 4 ao longo do processo de 24 horas ininterruptas em cena. É uma investigação do mergulho desta atriz, e de como o passar das horas, a emoção e o cansaço vão interferindo na sua interpretação.


Carla Ribas como Testemunha 4


TESTEMUNHA 4

(69 min / HD / 2011 / RJ)
com: Carla Ribas
Realização: Marcelo Grabowsky
Montagem: Marilia Moraes e Ricardo Pretti
Câmeras: Bernardo Scotti, Julio Costantini, Leo Bittencourt, Mario Cascardo
Assistentes de direção: Aline Portugal e Julia De Simone
Edição de som e mixagem: Bernardo Uzeda
Supervisão de som direto: Jonas Louzada e J. P. Fonseca
Correção de cor: Julio Costantini
Produção: Carlos Eduardo Valinoti e Deborah Piller
Produção executiva: Marcelo Grabowsky
Finalização: Titânio Produções
Supervisão de finalização: Tiago Arakilian
Coordenação de finalização: Débora Gusmão
Assistente de finalização: Carolina Jessula
Tradução para o inglês: Barbara Venosa
Foto do cartaz: Guga Melgar

Uma produção Mirada Filmes


INSTITUTO MOREIRA SALLES:
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
CEP 22451-040 – Rio de Janeiro-RJ
Tel.: 21 3284-7400 – Fax: 21 2239-5559

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Crítica de O INTERROGATÓRIO na Folha de São Paulo

CHRISTIANE RIERA

CRÍTICA DA FOLHA

Tour de force seria um eufemismo para definir tamanho esforço artístico e físico da montagem de 12 horas de "O Interrogatório", adaptação da peça do dramaturgo alemão Peter Weiss e uma verdadeira "vigília cênica", como definida pelo grupo carioca Centro de Investigação Teatral.

Trata-se de uma reconstituição dos momentos finais do julgamento de Frankfurt (1963 -1965) dos ex-guardas nazistas de Auschwitz. Ocupando parte da plateia, de um lado, os acusados. No canto oposto, as testemunhas. Soltos pelo palco, promotor e advogado. Ao centro, o juiz cara-a-cara com o público, que ouve os relatos envolvendo câmaras de gás, o Zyklon-B, experiências científicas, cercas elétricas e o muro negro. Um time de 40 atores impressiona pela devoção, precisão e, acima de tudo, pelo talento.

Cena da peça "O Interrogatório", em São Paulo



Na dramaturgia de Weiss, o esperado. Uma mistura de transcrição tecnocrata com narrações de comoção única sobre os detalhes da rotina de crueldade inarrável em um campo de extermínio. Na leitura do diretor Eduardo Worzik, uma surpresa. Palco e plateia se fundem, transformando o teatro em tribunal.

O texto ganha caráter ritualístico quando, depois de 5 horas, os depoimentos começam a se repetir, apontando para uma circularidade infinita além da sensação de que estamos, de fato, em uma reunião de cunho social-religioso em que propósito é realmente velar eventos trágicos.

Às 6 da manhã, por volta de apenas 10 pessoas na plateia, insones sob o efeito desta oratória estonteante. Com a saída dos atores, um silêncio retumbante.

Das trevas do teatro, algo grandioso e indecifrável, que também abarca os hutus em Burundi, os tutsis na Ruanda ou ainda os timorenses e os haitianos e outros inúmeros descaminhos jamais desvendados da humanidade. E ecos distintos da já folclórica frase de Joseph Conrad: "O horror! O horror!"

Uma reflexão sobre O INTERROGATÓRIO, a partir do olhar de um espectador

Que “o campo” ainda sobrevive, eis aquilo de que não devemos nos lembrar, se a vida puder se perder na ficção. E se é assim que temos vivido, haveria ainda espaço para a resistência? “O Interrogatório” não pretende discutir essa questão. Simplesmente instaura um espaço privilegiado de resistência.

É magnífica a forma como a peça instaura a repetição em diversos níveis. Parece fundamental que se reconheça na própria racionalidade do processo em andamento a perpetuação daquilo que se pretende condenar. Algo que aparece do modo mais claro na figura do advogado de defesa, cuja atuação ambígua só pode escapar ao desespero ao nos remeter sempre de volta à lei. Essa mesma lei em nome da qual apenas cumprimos o regulamento, pretendendo escapar, com isso, à dimensão ética de nossos atos.

Mas há ainda uma dimensão silenciosa, quase subterrânea, de encenação dessa triste verdade. Há a personagem que fica transitando com uma pasta, de onde eventualmente retira papéis a serem assinados pelo juiz. Figura que aparece como um olhar onisciente, que se move de modo irrestrito por todas as dimensões do espaço público, supervisão atenta de tudo o que se passa nesse espaço. Podemos reconhecer nela uma espécie de encarnação da instância superior à qual todos sempre poderão se remeter ao pretenderem justificar seus atos em nome da lei. Uma espécie de encarnação da própria Instituição, que não enuncia ordens a ninguém, mas configura o campo no interior do qual a lei pode vigorar. Inscrita do outro lado da Instituição, temos a servente mansa, calada, obediente, impotente e, acima de tudo, encarnação do ponto onde a resistência se torna impossível. Lugar onde a única alternativa é estar em acordo com as próprias coordenadas que a destituem de qualquer liberdade. Figura dócil que se molda de acordo com seu papel, como todos os outros. Atualização cínica do espetáculo.

Em contrapartida, podemos reconhecer na figura de outra personagem sem voz alguns dos pontos cegos da lei, que se constituem como lugares onde a resistência se torna possível. Possível, mas às vezes inexistente, como é o caso da figura da faxineira. Embora seja uma serviçal, sua conduta não se ajusta sempre às regras. Sem uniforme, trata-se da única personagem que, em alguns momentos da peça, sobe ao palco pelo centro, sem usar as escadas laterais. Um pouco como se estivesse na borda da lei - às vezes com ela, outras fora dela. Em todo caso, está em cena. Onde quer que se configure um espaço de liberdade no interior da lei, ali ela poderá habitar. Como quando se diverte cantarolando e comendo com as testemunhas, num intervalo do julgamento. Ela é a própria encarnação do intervalo, da ruptura, da fronteira. Seu poder subversivo reside precisamente nisso: habita o interstício.

Mas há também aquele que está na sombra, fora de cena. Lugar da memória, inscrevendo nomes nas paredes. Como se fosse ele que, justamente estando fora da história, pudesse contá-la, ainda que a única maneira pela qual se pudesse fazer isso fosse a repetição daquilo de que ainda não escapamos. Seria equivocado dizer que ele não tem voz, pois sempre aparece com a música. É ele o artista, aquele que aponta para um outro horizonte possível. Tudo se passa como se toda peça a que estamos assistindo emanasse dessa figura. É ele quem nos lembra durante a peça, como não deveremos esquecer ao sair, que o ator está condenado, n’O Interrogatório, a permanecer na única posição ética possível. Somente o público pode descansar, ou nem mesmo estar lá pra ver... Algo que lembra as palavras de Plínio Marcos, de que o talento do ator é muito mais uma condenação do que uma dádiva. Nunca isso foi levado tão a sério.

O teatro, então, pode nos aparecer como uma estratégia de resistência realmente possível. E enquanto o público se cansar, os atores não poderão descansar. Repetir sempre, e quando houver exaustão, que se repita ainda outra vez. Enquanto alguém puder dizer “eu não me lembro”, enquanto alguém puder perguntar, atônito, se “não houve resistência?”, que o tribunal permaneça aberto. Até que não seja mais possível esquecer.

Pois devemos nos aproximar de “O interrogatório” colocando a questão de modo inverso: o que acontece quando a ficção se torna realidade?


Beto.

Matérias sobre O INTERROGATÓRIO em São Paulo

Em entrevista, o diretor Eduardo Wotzik fala da paixão pela obra de Weiss e sobre a complexidade (e vontade) de levantar um projeto desta magnitude. Acesse o link:

http://www.agentesevenoteatro.com.br/entrevista/index/135/6/o-interrogataori



Reportagem do ESTADÃO do dia 22/11/10:

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101126/not_imp645352,0.php



Matéria do DIÁRIO DO COMÉRCIO (26/11/10):

http://www.dcomercio.com.br/materia.aspx?id=57142&canal=50

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

1938: O pogrom da "Noite dos Cristais"


No dia 9 de novembro de 1938, agentes nazistas à paisana assassinaram 91 judeus, incendiaram 267 sinagogas, saquearam e destruíram lojas e empresas da comunidade e iniciaram o confinamento de 25 mil judeus em campos de concentração.

Aquela que ficaria conhecida no próprio jargão nazista como a "noite dos cristais quebrados" marcou o início do Holocausto, que causou a morte de seis milhões de judeus na Europa até o final da Segunda Guerra Mundial.

A "Noite dos Cristais" (Kristallnacht ou Reichspogromnacht), de 9 para 10 de novembro de 1938, em toda a Alemanha e Áustria, foi marcada pela destruição de símbolos judaicos. Sinagogas, casas comerciais e residências de judeus foram invadidas e seus pertences destruídos.


Série de proibições aos judeus

Milhares foram torturados, mortos ou deportados para campos de concentração. A justificativa usada pelos nazistas foi o assassinato do então diplomata alemão em Paris, Ernst von Rath, pelo jovem Herschel Grynszpan, de 17 anos, dois dias antes.

A perseguição nazista à comunidade judaica alemã já havia começado em abril de 1933, com a convocação aos cidadãos a boicotarem estabelecimentos pertencentes a judeus. Mais tarde, foram proibidos de freqüentar estabelecimentos públicos, inclusive hospitais.

No outono europeu de 1935, a perseguição aos judeus, apontados como "inimigos dos alemães", atingiu outro ponto alto com a chamada "Legislação Racista de Nurembergue". Enquanto o resto do mundo parecia não levar o genocídio a sério, Hitler via confirmada sua política de limpeza étnica.


Trajetória para o holocausto já havia sido aberta

Uma lei de 15 de novembro de 1935 havia proibido os casamentos e condenado as relações extraconjugais entre judeus e não-judeus. Havia ainda a proibição de que não-judeus fizessem serviços domésticos para famílias judaicas e que um judeu hasteasse a bandeira nazista.

Ainda em 1938, as crianças judias foram expulsas das escolas e foi decretada a expropriação compulsória de todas as lojas, indústrias e estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus. Em 1º de janeiro de 1939, foi adicionado obrigatoriamente aos documentos de judeus o nome Israel para homens e Sarah para mulheres.

A proporção da brutalidade do pogrom de 9 de novembro foi indescritível. Hermann Göring, chefe da SA (Tropa de Assalto), lamentou "as grandes perdas materiais" daquele 9 de novembro de 1938, acrescentando: "Preferia que tivessem assassinado 200 judeus em vez de destruir tantos objetos de valor!"

Doris Bulau



Texto enviado por Yashar Zambuzzi

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Interrogações



Ao comentar um livro sobre o teatro contemporâneo, o antigo diretor, já aposentado, Gerald Thomas, prosseguiu em sua cantilena autorreferente, segundo a qual o teatro está morto ou sobrevive se autocopiando de maneira nauseante. Gostamos dessa consciência crítica ou autocrítica mas, para o espectador de teatro, cabe o espetáculo de pesquisa de linguagem, mas também aquele que, fundado em um texto importante, sirva apenas de veículo para a sua locução adequada. Afinal, conforme disse o extinto diretor, o teatro é uma arte para poucos e, se tem sua contribuição na mudança das referência culturais e nas decisões políticas individuais e coletivas, ela pode vir das mais variadas formas, à parte os empreendimentos meramente comerciais que nada tem a oferecer ao teatro como arte, e apenas repetem ao público conservador aquilo que ele quer e está preparado para ouvir e ver.


Depois do preâmbulo, a razão: a representação, por 6 horas consecutivas, da peça de Peter Weiss, O INTERROGATÓRIO, dirigida por Eduardo Wotzik, nada além da transposição do menos célebre Julgamento de Frankfurt (comparado com o de Nurenberg), ocorrido em 1965, que se ocupou de figuras menores mas atuantes no campo de concentração de Auschwitz, de triste e global memória.

Temos um juiz no centro do palco atrás de sua mesa; à sua direita, outra mesa com sua cadeira, ocupadas sequencialmente por testemunhas de acusação; pelo palco, circulam o advogado de defesa, o promotor e funcionários da Justiça; na própria platéia, nas primeiras fileiras da esquerda e direita, acusados e testemunhas de acusação (sobreviventes do campo de concentração).

A rigor, não é um espetáculo teatral, mas uma transposição, para o palco, das sessões de julgamento, onde o espectador ouve os agentes envolvidos a debater responsabilidades e conivências dos envolvidos. Relatam-se fatos - para uns, para outros (os acusados, é claro) injúrias ou interpretações errôneas. A defesa dos acusados é padronizada: nada viram, de nada sabiam ou, se estiveram um dia no pátio de execuções ou diante dos fornos crematórios, foi apenas uma única vez e porque cumpriam ordens. Cumprir ordens: alguém pode ser culpado por isso? Sim, eram ordens horrendas, mas poderíamos realmente questionar as razões de Estado? As testemunhas, coincidentemente, só o foram porque um dia estiveram diante dos fatos mas, na maioria das vezes, demorou a reconhecer o que realmente era o campo de Auschwitz. A fome e a fraqueza decorrentes, mais as contínuas torturas, impediram qualquer ação de resistência.

Evidentemente, os atores estão em um palco representando seus papéis. É teatro, mas decupado dos maneirismos da arte. O realismo tende ao absoluto, restando claro as espectador que, como o julgamento não é real, sobrevive o jogo teatral, mas como exposição das razões e desrazões que constituíram um dos pontos culminantes da barbárie humana, não somente contra judeus, mas também contra comunistas, homossexuais, ciganos, poloneses, russos... Novamente vemos o Estado Nazista como exemplar em sua organização detalhada com objetivos genocidas. Disso resulta o comprometimento frio do cidadão alemão com um programa bem articulado e de execução factível, além de urgente e necessária. Teatro também pode nos por diante das matérias do dia e das de sempre; pode ser experimental, mas pode restringir-se ao realismo possível. Será sempre teatro.

De O INTERROGATÓRIO, que acompanhamos por todas as 6 horas sem cansaço e quedas de interesse, ficam inúmeras interrogações, mas vale um depoimento de um dos testemunhos, segundo o qual o fato de que de um lado estavam alguns cidadãos despojados de seus direitos e de outro aqueles que representavam a legitimidade e legalidade dos direitos enquanto atribuídos pelo Estado Nazista, não passou de fatalidade, pois os papéis seriam intercambiáveis. Somos todos seres humanos, e nenhum de nós está isento de ser um dia vítima, no outro algoz: as condições de produção da barbárie persistem e integram a todos em seu caldo cultural de racismo, xenofobia, homofobia, machismo, feminismo e todos os demais ismos devotados, sobretudo, ao poder, e este à imposição de princípios contra os quais apenas os degenerados lutam, segundo seu próprio ponto de vista, que pode ser o dos nazistas, dos judeus, dos homens, das mulheres, homossexuais, negros, comunistas, liberais, religiosos, e por aí vamos, lista infinita. Ou seja, os inocentes não são personagens históricos e, como tais, não pisam no palco (ou na platéia) do teatro.
 
 
 
Escrito por
RACHEL NUNES